quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Riqueza da cultura negra na Web


Por Fabiano Chaves

Iniciativa da produtora e diretora britânica Vik Birkbeck e do produtor Filó Filho, acaba de entrar no ar o portal Cultne – Acervo Digital da Cultura Negra. O lançamento oficial do site ocorreu no último dia 23, no Rio de Janeiro.

Trata-se do maior acervo sobre conteúdos que envolvem o universo negro brasileiro, como manifestações políticas, sociais e artísticas; com registros que remetem ao início dos anos 1980, realizados pelas produtoras Enúgbarijo Comunicações, do artista Ras Adauto e de Vik Birkbeck, e da Cor de Pele Produções, de Filó Filho e Carlos Alberto Medeiros.

“Desde essa época já nos conhecíamos, mas cada um registrava os movimentos com o seu olhar. Registrávamos tudo o que acontecia em relação ao movimento negro, que começava a despontar no país”, conta Filó Filho, que já fez parte da Banda Blac Rio.

Ao longo dos anos, as duas produtoras realizaram uma rica diversidade de imagens sobre acontecimentos no Brasil. A visita do arcebispo sul-africano Desmond Tutu, em 1987, no Rio de Janeiro; do líder Nelson Mandela, em 1992; a chegada do ícone do soul James Brown ao aeroporto do Galeão, também na capital fluminense, em 1988; depoimentos de artistas como Gilberto Gil, Elton Medeiros, Zezé Motta, Pelé, entre outros, sobre o centenário da abolição da escravatura no Brasil; os bastidores da filmagem do clipe “They don’t really care about us”, de Michael Jackson no Pelourinho e no morro Dona Marta. Todo esse material, registrado em VHS, estava arquivado e quase se perdendo devido a ação do tempo.

“No fim dos anos 1990, muito desse material já demonstrava uma certa carência nas imagens, algumas já mofadas. Nos unimos e decidimos recuperar o material”, diz Filho.

Segundo o produtor, o ponto de partida para o resgate do conteúdo que ele e Vik Birkbeck já haviam feito começou, em 2001, quando realizaram uma filmagem sobre uma conferência internacional contra a xenofobia e racismo, na África do Sul.

“A participação nesse projeto culminou com o resgate do acervo que, a princípio, foi realizado de VHS para VHS. Com a tecnologia dos dias atuais, o formato ficou obsoleto e fomos batalhar recursos para digitalizar esse material”, afirma.

Nesse sentido, Filó Filho e Vik Birkbeck conseguiram apoio da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro, com um orçamento de R$ 300 mil para digitalizar o acervo e criar o portal.

“No final do ano passado, conseguimos os recursos junto ao governo.De certa forma, esse momento (o da criação do portal) fecha um ciclo que começou há quase 30 anos” , destaca Vik Birkbeck, cineasta britânica radicada no Brasil há 35 anos.

No total, são mais de mil horas de gravações que serão disponibilizadas no portal. “Até o momento, não incluímos nem 1% de todo o acervo que temos. Há muita coisa ainda para entrar no ar”, afirma Filó Filho.

De acordo com ele, o material será disponibilizado no Cultne diariamente e o volume de conteúdos certamente ultrapassará o arquivo da dupla, já que o site permite que o público interessado contribua com seu material, analógico ou digital, para enriquecer o portal.

Um dos aspectos mais importantes da iniciativa é o seu caráter democrático. Vik e Filó sempre tiveram como diretriz a disponibilidade e acessibilidade dos conteúdos para toda a população.

“De nada adiantaria criar um portal com um acervo rico da cultura negra no Brasil se isso não fosse de domínio público. Essa era uma questão fundamental”, diz Vik, que coloca o vídeo sobre a marcha negra no centro do Rio de Janeiro, em 1988, como um de seus preferidos. “Aquele foi um momento muito importante na militância negra”.

Assim, qualquer pessoa pode acessar a página do Cultne, se cadastrar, e baixar gratuitamente os vídeos lá disponibilizados. Para compartilhar o conteúdo, todos eles ficam hospedados no YouTube, em vídeos de até dez minutos.

“Vi o quanto era importante registrar os acontecimentos”

Para o artista Ras Adauto, personagem importante na produção dos conteúdos agora digitalizados e disponibilizados no portal Cultne, a iniciativa tem um forte caráter de preservação da memória do país.

“Sempre participei do movimento negro no Rio de Janeiro e vi o quanto era importante registrar os acontecimentos que aconteciam por aqui. Quando me mudei para a Alemanha, percebi o quanto eles se preocupavam com o resgate e preservação da memória”, conta Adauto.

Nesse sentido, o artista exalta a criação do portal como uma forma não só de preservar a história, mas também de educar as novas gerações sobre as questões do universo negro. (FC)

Educação também está no foco do novo portal:

Com mais de mil horas de gravações sobre fatos e acontecimentos do universo negro no Brasil (número que tende a crescer devido à possibilidade dos internautas agregarem seu próprio material), o portal Cultne engloba o maior acervo sobre a cultura negra no país. Tudo isso de domínio público, onde toda a população pode ter acesso ao material ali postado.

Nesse sentido, a questão educacional foi um dos principais focos dos idealizadores do site, a cineasta britânica Vik Birkbeck e o produtor Filó Filho, ao criar o projeto. “Lá no início dos anos 1980, já produzia material que tinha características educacionais. O Brasil é um país sem memória e, consequentemente, o negro também. Agora, com a tecnologia e a recuperação desse material, isso se tornou possível. Isso vem ao encontro da lei que obriga o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas”, afirma Filho, lembrando que o portal permite que os vídeos sejam baixados gratuitamente e usados em trabalhos escolares ou qualquer outra atividade desde que não tenha fins lucrativos. “As instituições que quiserem acesso ao material original também podem conseguir esses vídeos”, adianta Vik Birkbeck.

Para o artista Ras Adauto, além do aspecto educacional, o portal pode também desempenhar um papel fundamental na conscientização das pessoas quanto ao preconceito e ao racismo.

“Penso que o Cultne é também uma arma contra todos esses absurdos que vemos em nossa sociedade. Existem pessoas e setores que querem negar nossa identidade. É a história do Brasil e não há como negar isso”, destaca Adauto, que ficou “emocionado” ao perceber a adesão de muitos jovens sobre as questões do movimento negro, durante o lançamento do portal. “Foi muito bom ver as crianças, filhos de amigos que carreguei no colo e hoje são jovens que continuam nessa luta. Isso representa a nossa continuidade”.

Futuro. Mesmo ainda diante de uma pequena etapa do Cultne, Filó Filho já vislumbra as possibilidades que o portal pode somar à cultura negra do país. “Isso é somente o começo de uma ação. Creio que em um breve vamos aderir a outros formatos, incluindo fotos, arquivos em PDF e até mesmo produzindo conteúdos diretamente para o portal”, diz.

Ras Adauto também pensa em boas perspectivas para o Cultne, inclusive internacionalmente. “Vamos continuar isso lá em Berlim. Temos várias histórias de negros brasileiros que migraram para a Alemanha e realizam diversas atividades de promoção da cultura afro-brasileira”, adianta.

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